Já que estamos entrando na semana do Dia das Crianças, vamos falar sobre aspectos importantes em relação à saúde delas. E, pra começar, nada melhor do que falar sobre o início dos cuidados com sua saúde: o pré-natal.
Infelizmente, mesmo com todas as informações a que se tem alcance, muitas mulheres ainda acham que o pré-natal não é importante. E isso não acontece apenas no Brasil. Existem programas de tv por assinatura que falam sobre gestação e parto de mulheres dos EUA, e às vezes mostram casos de mulheres que só procuraram um médico na hora do nascimento.

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O pré-natal é essencial tanto para a saúde da mãe quanto do bebê. Através dele, procura-se assegurar que a gestante passe pelas mudanças em seu corpo e em seu organismo da melhor forma, mantendo a saúde após o nascimento de seu filho. Já para o bebê, o pré-natal garante não apenas um parto tranquilo como a possibilidade de prevenir diversos problemas de saúde que podem ser enfrentados durante toda a vida.
Veja alguns exemplos de como o pré-natal pode ajudar na saúde de uma criança:
- O diagnóstico de má-formações ainda durante a gravidez, com a ajuda de exames de ultra-som, permitem que o tratamento seja planejado com antecedência, permitindo que as intervenções necessárias sejam realizadas precocemente. Em algumas situações, a correção de defeitos cardíacos ou neurológicos pode ser feita ainda dentro do útero. Casos de mielomeningocele, por exemplo, detectados na gestação, possibilitam que o parto seja marcado antecipadamente, com a presença de um médico neonatalogista, a avaliação por um neuropediatra logo após o nascimento e a cirurgia para correção ainda no primeiro dia de vida do bebê.
- O tratamento de infecções da mãe evita que o bebê também seja contaminado. Infecções podem levar a problemas graves para o bebê, dependendo da etapa da gestação em que ocorrer. Rubéola e sífilis, por exemplo, podem causar cegueira, surdez, paralisia cerebral e deficiência mental.
- A orientação adequada de medicamentos que precisem ser usados pela grávida garante que o bebê não seja prejudicado por essas drogas. Existem muitos medicamentos que causam má-formação, como a talidomida, muito conhecida por originar má-formação de membros.
- O tratamento de anemia da mãe pode evitar o risco de má-oxigenação para o cérebro do bebê, evitando uma das causas da paralisia cerebral.
- O acompanhamento de pré-eclâmpsia, evitando que o quadro chegue à eclâmpsia, pode evitar o parto prematuro e o baixo crescimento do bebê.
- A identificação da desnutrição ou do uso de drogas pela mãe possibilita o tratamento adequado, também evitando partos prematuros.
- Descobrir doenças como a Síndrome de Down durante a gravidez não possibilita a cura da síndrome nem o início de um tratamento ainda na gestação. Mas os meses até o nascimento antecipam o processo de aceitação dos pais, a descoberta de informações, orientações profissionais, procura por grupos de apoio, e esses fatores facilitam a relação entre a família e o bebê após o nascimento.
Essas são apenas algumas das situações que envolvem o bebê e podem ser trabalhadas ainda durante a gestação. Trabalhando com crianças e adultos com deficiência mental e/ou física, especialmente paralisia cerebral, foi possível ver a quantidade de casos que poderiam ter uma evolução totalmente diferente com um pré-natal adequado. Nem todos os casos podem ser resolvidos, isso é certo. Mas já vi tantos bebês lindos, com deficiências graves que poderiam ter sido evitadas.
O caso mais marcante que conheci aconteceu ainda na faculdade. Uma mãe não estava fazendo o acompanhamento pré-natal. Seus bebês gêmeos nasceram prematuros, aos 6 meses de gestação. A mãe entrou em coma. Um dos bebês se recuperou bem e, aos 4 meses, pôde ter alta do hospital. O outro bebê, entretanto, teve sérios problemas de saúde. Com 3 meses de idade, pesava menos de um quilo. Provavelmente teria deficiência visual. Tinha má-formação do sistema digestivo. Se sobrevivesse, teria deficiências múltiplas. A família, carente e desinformada, abandonou os bebês, culpando-os pela situação da mãe. O processo de adoção foi aberto, mas era preciso esperar até que o gêmeo com maiores comprometimentos tivesse seu quadro estável para que os dois fossem adotados pela mesma família. Infelizmente, depois do estágio, perdi contato e nunca mais consegui informações sobre os bebês. Eles devem ter, hoje, 9 anos. Imagino que os dois tenham sobrevivido. Mas que um tenha paralisia cerebral severa. Acredito que tenham sido adotados por uma família que tenha mantido os irmãos unidos e que dê todo o suporte que precisam. É impossível saber exatamente o que teria acontecido se a história tivesse começado diferente. Mas é possível sim que, com uma simples consulta mensal ao obstetra, aquela mãe estivesse saudável com seus dois filhos.