Portadores de Síndrome de Down: estéreis ou não?
Na semana passada, o Daniel Becher fez um ótimo texto falando sobre seu encontro com uma criança com Síndrome de Down e o quanto o momento com o menino foi importante para ele. O texto foi bastante elogiado, exceto por uma pessoa que entendeu que ele havia escrito um endeusamento a quem tem Síndrome de Down. Não vou discutir aqui a crítica que ele fez. Lendo o texto, não vejo nenhuma espécie de endeusamento ou apologia. Você pode ler o texto clicando aqui, para tirar suas próprias conclusões.
Mas o que mais me chamou atenção no comentário com a crítica foi o seguinte trecho:
Se houvesse mais trissomias por aí você não teria nascido, já que são estéreis, e você não estaria digitando nesse computador, que foi inventado e desenvolvido por dezenas de pessoas com QI acima de 70.
A esterilidade de pessoas com Síndrome de Down ainda é um mito até mesmo entre profissionais da área da saúde. Até um tempo atrás, se acreditava que todo portador da também chamada Trissomia do 21 era estéril. Acabou se descobrindo que isso não é uma regra.
Um terço das mulheres com Down não são estéreis, ou seja, podem ter filhos. São 30 os casos registrados no mundo de bebês nascidos de mulheres com Down. A chance de que o bebê também nasça com Síndrome de Down é de 50%. Há um exemplo no Brasil: no ano passado, Maria Gabriela (que tem a síndrome) teve uma filha, Valentina. A menina, porém, não tem nenhuma deficiência.
Já os homens com Síndrome de Down são, em sua maioria, estéreis. Existem apenas 3 casos documentados em todo o mundo de homens com Down que tiveram filhos. Apesar de muitos médicos e cientistas ainda considerarem que esse número não é significativo, há que se levar em consideração que podem existir outros casos não registrados.
É importante também considerar que o pequeno número de bebês nascidos de pais com Síndrome de Down pode ter ligação não apenas com a alta incidência de esterilidade. As famílias de pessoas com a síndrome, por muito tempo, as mantiveram sob estrito controle, sem que permitissem relações amorosas e sexuais. Isso vêm mudando com o passar dos anos, com mais informações a que os pais têm acesso e com a maior inclusão social das pessoas com deficiência, o que pode levar a novos e mais frequentes casos de gravidez. Assim, a educação sexual – principalmente a prevenção de gravidez e doenças – deve ser um tema abordado pelos profissionais de saúde e educação envolvidos com familiares, pacientes e alunos com Síndrome de Down e outras deficiências.
Enfim, não apenas o autor do comentário não compreendeu o sentido do texto do Daniel, como ainda escreveu uma informação errada.

