Alzheimer: contar sempre a verdade ou não?
Através do Twitter da Thais Godinho e da Carolina Fraga, fiquei sabendo de um hospital alemão que instalou à frente da porta um falso ponto de ônibus. O objetivo é ajudar a controlar as crises de pacientes com Alzheimer, principalmente em momentos em que ficam desorientados e querem ir para casa.
Se um paciente fica agitado querendo ir pra casa, os funcionários do hospital podem levá-lo ao falso ponto de ônibus. Enquanto “esperam”, o paciente pode se acalmar até que aceite voltar ao prédio. Se o paciente tentar fugir (o que não deveria acontecer, claro, mas na verdade entendo que, por maior que seja a vigilância, pode acontecer), é possível que, ao ver o ponto, decida esperar o ônibus. Isso dá tempo para que um funcionário o localize.
Nem todos concordaram com a criação do falso ponto de ônibus porque são contra mentir para os pacientes. Alguns só mudaram de ideia ao ver que houve redução no número de fugas do hospital.
Há uns anos conheci Days With My Father, site do Phillip Toledano, que fez lindas fotos e textos emocionantes sobre seu pai, que vivia em um asilo e tinha Alzheimer. Após a morte da mãe, Phillip teve que responder constantemente às perguntas do pai sobre a esposa. A cada vez que contava que ela havia falecido, o pai revivia o luto, como se houvesse acabado de acontecer. Phillip, por consequência, também revivia o momento ao presenciar o sofrimento do pai. Decidiu então não mais contar a verdade. Quando perguntado, falava que a mãe havia viajado para cuidar de um familiar. O pai aceitava, sem angústias, choros e questionamentos.
Quando minha vó faleceu, vivenciei isso. Nas primeiras vezes em que meu vô perguntou por ela, falei o que havia acontecido, porque eu não sabia se a família concordaria com não contar a verdade. Ele perguntava por que ninguém contou, por que não foi ao velório e ao enterro, por que nem sabia que ela estava doente. Ele sabia sim que ela tinha ido para o hospital, soube da morte, foi ao velório e ao enterro. Mas não lembrava (ele tem demência fronto-temporal, condição bastante semelhante ao Alzheimer). Era difícil vê-lo passando por esse sofrimento repetidas vezes. A família tomou a mesma decisão de Phillip. Como somos vários, acredito que cada um fala alguma coisa diferente. Eu, às vezes, falo que ela está trabalhando, ou que está em outra parte da casa, que foi ao médico, que está na casa de algum filho.
Não, não me sinto confortável mentindo pra ele, mas tenho certeza de que é o melhor que poderíamos fazer. Estamos protegendo-o de sofrimentos desnecessários, uma vez que serão esquecidos momentos depois e repetidos em algumas horas. Coloque-se no lugar: como você se sentiria sabendo que perdeu um ente querido todo dia? Escolhemos as verdades e mentiras que serão contadas; qualquer situação que possa deixá-lo triste ou preocupado sem necessidade é evitada; fatos que o deixem feliz, claro, são comunicados.
Então, concordo com a decisão do hospital. Se há como tranquilizar um paciente dando tempo e atenção a ele, por que não usar essa estratégia? Por que usar contenção física ou medicações desnecessárias ao invés de levá-lo ao “ponto de ônibus”? Por que não oferecer tranquilidade e sensação de segurança a quem já tem tantas dificuldades? Ao menos enquanto avançam os estudos canadenses em que, através de estimulação por eletrodos, está se mostrando possível estagnar e até reverter a redução do hipocampo (fato envolvido na redução da memória e desorientação)…


fevereiro 5th, 2012 at 11:25 am
concordo. um beijo
fevereiro 6th, 2012 at 9:34 am
Obrigada, Lili, beijo pra você também!